sexta-feira, 30 de julho de 2010

O mal que habita em nós

Somos belicosos. Humanos sempre dispostos ao enfrentamento; sabemos responder "a altura" ao sermos ameaçados e/ou afrontados. Êita sangue crente!

Mesmo quando afirmamos o controle divino sobre o nosso comportamento, ainda assim nos indispomos fácil, fácil; uma reserva infame de nós mesmos que usamos sempre que se apresenta uma ocasião. Somos belicosos.

Ao nos aplicarmos à leitura e, por conseguinte ao conhecimento da Palavra de Deus, percebemos o Senhor ensinando-nos, capacitando-nos para as situações adversas; 1 Pe 3: 17 afirma: "Porque é melhor sofrer por praticar o bem, se for da vontade de Deus, do que por fazer o mal.". O Espírito utiliza-se de Pedro e convoca-nos para um exercício puxado, administrar a situação tensa, administrar a resposta rude, a observação jocosa, ofensiva; aqui na Missão Vida nos tornamos administradores hábeis, coisas do ofício.

Administrar conflitos é uma arte.

Crentes administram conflitos.

Ser crente é uma arte.

Um arremedo de silogismo pra fraturar a monotonia do assunto.

No Evangelho escrito por São João 15: 19, Jesus previne-nos quanto às agruras que aguardam os crentes; as aflições se apresentam logo após a conversão, penso que ainda durante a festa dos anjos, (hoje mesmo tem festa lá no Céu, mais um mendigo virou crente) o inferno já trabalha objetivando o fracasso do novo crente.

Posso falar sobre isso horas a fio, (ao deixar as armas e o roubo e as drogas pela Bíblia, não me deixaram mais em paz, por muito tempo; ser crente é bom demais da conta, se não fosse todo mundo ou quase desistiria na largada, certamente).

Que atitude neste ou no mundo espiritual pode ser mais criminosa que a injúria? O descaso? A Igreja vem se esmerando na infame arte de injuriar e tratar de qualquer jeito.

E o fogo cerrado não ocorre nas ruas, somente; entre nós campeia o mal, que só encontra guarida por encontrar uma porta.

Uma expressão pode ampliar nossa compreensão do quanto facilitamos a progressão maligna em nós e através; Jesus, o Senhor, ao ensinar-nos a orar inclui "Livra-nos do mal" Mt 6: 13a NVI; compreendemos aqui a forma de sermos livres do mal, deixando que o Espírito conduza-nos a lugares seguros, por caminhos seguros.

Não enfrentamos as ciladas do diabo, nos desviamos delas; desviar do mal é assunto do salmo 1:1, e Jó é exemplo desse desviar: "Homem que teme a Deus e, evita o mal." Jó 1: 8b, não obstante, nós recebemos quando não somos nós quem convidamos o mal e os seus agentes espirituais e/ou humanos pra estar conosco.

"Se o teu pé te faz pecar, se a tua mão te faz pecar, se o teu olho te faz pecar, pare de se orientar pelos "teus membros".

"Livra-nos do mal" é parente próximo de "Resisti ao diabo," E o resultado é um só: "e ele fugirá de vós!"

O Senhor ensina-nos a orar e a depender; são atitudes que exigem constância, evitar o mal é ato de resistência.

Não há concessões na Bíblia, nem meio-termo há; o mal na Bíblia é identificado e tratado como o mal, e cada vez que cedemos no falar, pensar e fazer, ao mal cedemos. Mal que se instala, aloja-se.

E Pedro discorre didaticamente sobre o triunfar sobre o mal: "Demonstrai compaixão e amor fraternal, sede misericordiosos e humildes." Isso é guerra contra o maligno proceder! Minamos o inimigo recusando-nos a usar as mesmas armas; a nossa luta não é contra humanos (por mais detestáveis que alguns se apresentem de quando em vez).

A nossa luta é contra o mal por dentro e por detrás de gente que gasta energia e tempo na tarefa ingrata de parecerem bons, mas não se movem em direção à fonte de todo o bem, o Senhor.

Traduzir Jesus é simples: compaixão.

Sentimento algum assemelha-nos ao Senhor como o faz quando nos compadecemos, padecemos com, temos o mesmo sentimento, e pensamento.

"Não retribuindo mal com mal, tampouco ofensa com ofensa; ao contrário, abençoai; porquanto, foi justamente para este propósito que fostes convocados, a fim de também receberem benção por herança." 1 Pe 3:9 KJA

Stott oferece-nos precioso comentário: "Pagar o bem com o mal é demoníaco; pagar o bem com o bem é humano; pagar o mal com o bem é divino."

Dava pra encerrar aqui, mas preciso destacar um termo da epístola de São Pedro: Abençoai; a despeito da infâmia e das ofensas que sofrer, eu abençoarei.

Se fosse fácil todo mundo seria crente. Justamente aqui vemos solapar a fé; abençoar a quem me amaldiçoa, tratar com amor a quem me ofende, desejar e contribuir para o bom sucesso de quem maquina o mal contra mim.

Pagar o mal com o bem e ser de ponta a ponta parecido com Jesus.

(ex-interno do Centro de recuperação de Mendigos – Missão Vida)


 

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Letra Santa - Comunidade de leitura

domingo, 20 de junho de 2010

, O veremos!

_______ Magno Aquino
Rever o meu pai após tantos anos seria a experiência que me faltava naquele ano; tinha tres anos quando ele e a minha mãe compreenderam que sozinhos andariam melhor, ou simplesmente seriam menos infelizes.
Quatro anos depois descobri os calmantes da minha mãe no criado-mudo e as bebidas no bar da sala; um pirralho de sete anos que se alegrava tomando calmantes e bebendo run, ou o que encontrasse. Década de 70.
Cidade do Salvador – Bahia; íamos de ônibus e isso em parte era favorável, um tempo longo para que no percurso nós, eu e a Marialice, a caçula pudéssemos conceber imagens, diálogos e botar as ideias e os sentimentos em ordem – tinha algumas vagas imagens, nenhuma lembrança do timbre da voz. Os meus sentimentos eram tão ou mais confusos do que os da minha irmã adolescente.
Expectativa: a palavra apropriada
Apreensão: a palavra reinante
Angústia: nosso estado de espírito.
De um momento pra outro fomos tirados da nossa realidade simples com hábitos e problemas comuns pra uma aventura de mil quilômetros ao encontro de um desconhecido por quem não sabíamos o que sentir. Desconforto e chateação, uma viagem ruim, decididamente; só não era de todo insuportável por termos um objetivo: conhecer o nosso pai.
Eu era um sujeito estranho recém saído da dependência das drogas e do tabagismo, com sérios problemas de saude, mas feliz, a despeito do lastimável estado. Falávamos muito sobre como ele seria agora, se chegaríamos e seríamos polidos distantes, ou se correríamos ao seu encontro e o abraçaríamos sem saber o que dizer; nas nossas mentes confusas era só isso e imagens em branco e preto das fotografias do álbum de mamãe.
Hoje sou homem feito e já passei dos quarenta e pretendo, permitindo o Senhor, viver outros quarenta e tantos; tenho outra expectativa (houve um tempo em que a diferença entre o mundo que deixei – drogas, violência, contrastava e contrasta com o mundo para o qual fui transportado – amabilidade, cuidados) e eu pensava que pedir outra coisa além de poder frequentar uma igreja seria abuso.
Hoje quero gastar toda a minha eternidade somente assim, face a face com o meu outro Pai. Se aquela viagem teve um final surpreendente, pense no desenrolar desta.
Quem ainda não tirou um tempo para imaginar como será lá? Lá na glória, pois não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir. A Igreja triunfante, noiva! Razão da nossa caminhada. Nós somos um povo triste muitas vezes; desesperançados outras tantas por perdermos a noção exata de quem somos, do que estamos fazendo aqui, porque e pra onde estamos indo.
Vivemos aqui como se este aqui fosse o nosso destino final, mas não é este o nosso mundo no qual o mal impera e do qual já fomos resgatados. Tal sistema nem de longe se assemelha ao que nos está sendo preparado pelo Senhor. Nem imagens em branco e preto desfocadas temos do Céu.
Não sou um romântico como o Padre Zezinho: “Não sei se eram verdes os seus olhos, se tinha cabelos morenos...” Minha esperança está próxima da letra de uma canção dos unicistas da banda “Voz da verdade” “Ali tudo é vida, ali tudo é paz, morte e choro, nunca mais... Tristeza e dor, nunca mais!” Pelo visto quando cita a Bíblia a voz é verdadeira.
Na sua minguada compreensão e no seu estreito vocabulário o apóstolo São João tentando descrever o indescritível abusa dos comparativos; tente contar quantas vezes ele lança mão da palavrinha “como”: “Olhos “como” bolas de fogo”, e muito mais. E quando fala da Santa cidade ele compara certamente com algum lugar do qual só conhecia antes de ouvir falar: “Muros de jaspe, ruas de ouro...”.
Ah, a Árvore da Vida no centro da Cidade e ali o Cordeiro glorificado; penso que até os “como” de João são medíocres.
O povo de Deus necessita urgentemente sonhar ardentemente com o Céu; isso refletirá na qualidade da vida dos crentes, sonhar com o porvir; o Céu.
O Cordeiro glorificado, e nós com Ele.
Eu e a Marialice desembarcamos em Salvador duas décadas atrás com o coração aos pulos e a garganta doendo de angústia; por pelo menos dez vezes pensamos que homens sisudos e bem vestidos fossem o nosso pai, mas ele surgiu de camisa e bermudas brancas e sandálias de couro; Marialice e ele se abraçaram demoradamente, uma imagem ainda hoje forte na minha memória; e eu, bem, eu estiquei a mão, pedi a benção e olhei pro chão.
Mas lá, livre de todas as convenções auto-impostas pelos muitos anos de escuridão, quem sabe ao vê-Lo eu quebre o protocolo e corra ao Seu encontro e tasque-Lhe um beijo um abraço e, dispare a falar (quando calmo, já falo mais que a nêga do leite, imagine eu e Ele, faca a face).
Mas desta vez não desviarei o olhar, porque olhar pra Jesus, face a face é a razão minha de ter esperança n’Ele, Jesus esperança nossa. Isso me sustenta. ... Assim O veremos.

(ex-interno do Centro de Recuperação de Mendigos – Missão Vida)

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segunda-feira, 31 de maio de 2010

Matizes

M A T I Z E S

Não sou negro
Não sou branco
Não sou amarelo
Nem vermelho bang-bang
Nem verdinho marciano.

Mulato
Cafuzo
Mameluco

Carrego tantas cores no sangue
Que qualquer dia desses
Tatuo um arco-íris na retina

domingo, 30 de maio de 2010

Te agradeço por me libertar e salvar!


 


 

Magno Aquino Miramontes


 

Há muito perdi a conta do número de homens recuperados que pude assistir voltando pra casa; sempre uma boa sensação! Por hábito leio um texto, oramos e, às vezes rola um abraço; contato físico nunca foi o meu forte, nem o deles. Paulo André triunfou; das ruas pra Jesus!

Duzentos e dez dias!

Um investimento de tal envergadura pode ser contabilizado de formas várias: 840 refeições (oficialmente falando), mais de trezentos banhos (não oficialmente falando), 420 cultos e devocionais, dezenas de filmes, alguns passeios, incontáveis versículos memorizados, curativos, analgésicos, e a eterna pergunta: "Como eu vim parar aqui?".

Hoje aqui na Missão Vida na Bahia foi um dia assim, com assinatura em público do documento de conclusão do programa; o texto foi Rm 14: 4b, oração, uma meditação breve e é claro, hoje também foi um dia sem abraços, sou ruim nesse trem de abraçar, Paulo André também é; um aperto de mão firme e ficamos conversados.

Se o pastor Zilvan estivesse por aqui ele certamente abraçaria o Paulo André; o pastor abraça muito bem! Douglas também é bom nesse negócio de abraçar.

Dá pra notar a expressão bagunçada no rosto do ex-interno; alívio, cansaço, ansiedade, perplexidade. Uma sensação de abandono, todo mundo fica assim meio sem pai nem mãe, sem chão nem norte (mais perdido que cachorro quando cai de caminhão de mudança).

Conheço o sentimento, nunca me esquecerei do meu dia nº 210!

Boa parte da apreensão agora é por não se ter a menor ideia do que vem a seguir; é diferente de bandido que levanta a mão, vira crente e tem que voltar pras ruas (conheço esse sentimento também); agora o tempo é amigo, mesmo sendo impiedosamente rápido; o ex-interno agora é na maioria das vezes um crente em Jesus, com um passado vergonhoso, um presente confuso e um futuro sabe lá Deus...

Em todas as cartas aos crentes, São Paulo deixa afirmações a respeito de gente desse tipo: "E permanecerá em pé, porquanto o Senhor é capaz de sustentá-lo." Rm 14: 4b e tal afirmativa nunca foi tão preciosa como neste momento.

Assumir que precisa de ajuda, pedir ajuda, aceitar a ajuda que conseguir, aproveitá-la e então processar tudo e correr a carreira proposta. Fácil?

Ser crente depois de ser um monte de coisas ruins, adequar-se e prosperar na fé, no conhecimento e relacionamentos e alegrar-se no Senhor; triunfar.

Um mundo inteiro contra nós, um mundo sem chances novas, sem trabalho decente, seco e frio, impessoal e indiferente; um sabor estranho de solidão até que ecoe nos nossos corações outra declaração paulina: "Deus é por nós!".

Acostumamo-nos a esse versículo e com o tempo ele como tantos outros perde o sentido, o valor e poder de produzir fé e uma viva esperança de que mesmo tendo uma barricada contra nós, Aquele a quem nós só conhecíamos de ouvir falar e a Quem nunca dirigimos a palavra, é por nós.

Como se numa briga de rua quando todos se preparassem pra me surrar e de repente o meu pai aparecesse e mudasse tudo, até os ânimos e eu não estou mais só, não estou em desvantagem, não estou mais à mercê; o pai que interfere e muda a situação, isso faz o coração bater diferente, a figura heróica do pai que ajuda.

Ta certo, eu não tive pai aqui, mas ando me aproximando do Pai. Cada vez que leio que "Deus é por nós!" eu me sinto protegido. Deus por perto.

Permanecer inabalável é questão de opção, também de empenho e da compreensão de que sem Deus, não iremos muito longe. A Missão Vida oferece a chance de permanecermos assim, de pé.

Posso não ser bom com esse trem de abraços e coisa e tal, mas entendo bem de "recomeços". Recomecei. Paulo André também. Deus te abençoe meu irmão! A paz!

(ex-interno do Centro de Recuperação de Mendigos – Missão Vida)

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