quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Os especialistas


 


 

OS ESPECIALISTAS

Magno Aquino.


 

"Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações. Todos estavam cheios de temor e maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. Os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens distribuíam a cada um conforme a sua necessidade. Todos os dias continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos." Atos 02: 42-47 (NVI)

O crescimento da Igreja dos crentes é um relato empolgante: temor, amor e calor misturados à oração, perseverança e comunhão. Há neste registro tudo o que sonhamos e precisamos para crescer, um crescer saudável e duradouro; não esse processo no qual a Igreja incha por uns tempos e depois volta ao que era, ou regride. Na labuta pelo aumento do rol lançamos mão de todos os meios lícitos, válidos, cristãos e nem tanto.

Diferentes em tudo da Igreja primitiva buscamos na empresa secular os modelos alternativos de crescimento; ainda que o Evangelho que salva e transforma e o Espírito Santo que dá o crescimento sejam os mesmos, imutáveis desde a eternidade, nós insistimos em novas "técnicas" de expansão do Reino.

Tornou-se comum em nossos dias o surgimento de denominações "especializadas" em seguimentos do Evangelho, e fazendo-se "especializadas" fazem-se também arrogantes e relapsas; prega-se um evangelho adaptável, que se adéqua às necessidades do cliente, digo, do crente. Avulta-se o relativo em detrimento do absoluto.

Então temos: quebra de maldição hereditária, e só; confissão positiva, e só; teologia do riso, e só; descapetização, e só; batalha espiritual (seja lá o que queiram dizer com isso), e só; curas e milagres, e só. Cadê o Evangelho integral, bíblico e gratuito? Na minha igreja nós sentimos um imenso e santo orgulho quando dizem que ninguém estuda a Bíblia com maior zelo do que nós; mas, que as mesmas pessoas não apareçam nas reuniões do ministério de oração; um vazio de dar dó. Yes! Nós temos um ministério de oração, Uau!


 

E quase em frente (à minha igreja) abriram uma "igreja de campanha" e do amanhecer ao anoitecer eles oram e contribuem e empilham envelopes de pedidos e ofertas; (de onde vem tanto envelope?), mas nunca os vi calmamente assentados obedecendo à ordem: "Examinai as Escrituras!" Precisamos de uma e de outra coisa, precisamos atentar para o que diz Pedro: "Crescei na "graça" e no "conhecimento" de Jesus Cristo." II Pe 3: 18. Eu sei, estiquei o versículo!

Carregando o slogan do evangelho social nos tornamos assistencialistas, distribuidores de cestas básicas, e só; sequer oramos por aqueles carentes de tudo, e Mateus 4: 4, como é que fica? Pregamos o Evangelho, a Jerusalém celestial, mas agimos como se aqui e hoje não fossem importantes, mandamos todos para o porvir, sem escalas.

Intercessores, e só; ao passarmos por um "nu faminto sedento enfermo", ao largo passamos. Mt 25: 35. "Ama o teu próximo" vem no vácuo de "Ama o teu Deus"; amo Deus e deixo meu irmão na pior? A igreja da benção "A" despreza a igreja da benção "B" e juntas desprezam a cruz.

O nosso egoísmo produz igrejas egoístas; ouvi um pastor "social" dizer que a igreja crescerá "pra dentro", adeus missionário.

A Igreja precisa apresentar os cuidados com o crescimento social e espiritual aliados à experiência de transformação, da presença soberana do Espírito Santo; estudo bíblico e oração; sopão e louvor e cura cabem no mesmo templo. Adicione conversões aí.

Não precisamos de um evangelho da cura, outro da libertação, da prosperidade, um evangelho da quebra de maldição; mas precisamos da cura, da libertação, da prosperidade, da transformação e da salvação que em nós opera o Evangelho de Jesus, o Cristo.

A santidade em nós é que expressa o poder do Evangelho; os bens aparentes não oferecem uma visão clara da presença graciosa de Deus em nós; os ímpios são escandalosamente "especialistas" em ostentar esses bens aparentes, esmagam melhor do que nós.

O bom perfume de Cristo, a boa sensação causada pela tradução da cruz em nós e que nos diferencia, é que revela que somos humanos de volta à imagem e semelhança do Criador. Igreja que fala de um novo Céu, mas que vive uma nova vida aqui, e divide-a promovendo um todo.

Especialistas sim, especialistas em Deus, e só.


 

(ex-interno do Centro de Recuperação de Mendigos – Missão Vida)

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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A m o r d e C r e n t e


 

Amor de Crente


 

Participava de uma dessas adoráveis conversas após o culto, quando um velho amigo missionário dos tempos em que eu estreava no amor de Jesus se lembrou de uma conversa que tivemos; essa por sua vez bem antiga. Em frente a uma escola onde eu falaria a centenas de jovens; era a turma da noite, sempre mais assediada por vendedores de drogas.

Naquela noite enquanto esperávamos, ele me perguntou sobre como eu entendia a Nova Vida em Jesus, e porque um sujeito como eu era sempre tão risonho; a saúde frágil, a abstinência das drogas que me rendera entre outras coisas, os movimentos involuntários além da perseguição implacável por parte de policiais e de ex-comparsas; respondi como responderia qualquer recém-convertido cuja vida foi virada pelo avesso pela superabundante graça do Senhor.

"Não ligo pra polícia, não ligo pra ex-amigos que me param nas ruas e às vezes me surram por eu não carregar mais uma arma, mas queria muito entender é o motivo dessa gente toda gostar de mim." Ele franziu a testa.

"É difícil pra minha cabeça ver esse povo me tratando como se eu fosse um deles, fosse alguma coisa que prestasse, tivesse importância!"

Davi sorriu, concordando, afinal eu era só um garoto crescido e acostumado desde cedo a ações e reações violentas, a lidar com dor, solidão e desprezo com absurda indiferença. Gente como eu antes de Jesus, não pára pra sentir dor, sente dor enquanto foge; foge sempre.

Ainda se lembrou que me perguntara sobre a minha expectativa quanto ao Céu, morar com Deus... Respondi com a ingenuidade de um deslumbrado com Jesus, mas que ainda não entendia a razão do amor dos crentes: "Missionário, vai me desculpando, mas querer pensar que existe um lugar melhor que a igreja, é viagem. Viver no meio dos irmãos, ir a casa deles, até almoçar com eles, até ir pra igreja de carro com eles; querer mais que isso é abuso."

Comoveu-se e sorriu ciente de que aquele que respondia era só um ex-viciado e ex- um monte de coisas que andava as voltas com as delícias do primeiro amor. Naquele tempo eu morava numa sala da escola dominical da Igreja Presbiteriana de Montes Claros – MG. Aos domingos eu ficava sem casa. Aquele amor genuíno, aquela maneira carinhosa no tratar eram mais que tudo que alguém como eu conhecera até então.

Hoje penso nisso tudo e causa-me desconforto, a pergunta vem seca: Aonde foi parar aquele inigualável amor com o qual nos amávamos? Sei lá, fomos nos tornando crentes estressados, paranóicos e não é exagero, tem segurança na porta das igrejas; leão de chácara.

A Igreja é refém daqueles com os quais deveria estar, aos quais deveria anunciar a boa notícia da cruz. Somos uma sociedade violenta de alto a baixo, verticalmente.

Por não sermos mais uma "Igreja evangelizadora" passamos a criar departamentos, setorizamos a pregação do evangelho; Não sabemos o endereço da cadeia nem da favela, mas já distribuímos milhares de panfletinhos na porta da igreja, ali mesmo; o chão ficou um caos.

Levar as boas-novas e estarmos preparados pra receber gente que se converte, pois se tem uma coisa que sempre acontece é gente se converter quando pregamos o evangelho de Jesus Cristo! Falar desse amor, demonstrar esse amor pelas pessoas, ver mãos erguidas no meio da multidão, crente sem nome nem rosto, só crente.

Gostamos do show gospel da TV; claro que a banda séria da Igreja tem que fazer ouvidos moucos pra tanta parvoíce e canalhice veiculada.

Nós os crentes estamos perdendo o jeito de amar como amavam os crentes de tempos atrás; estamos sendo esvaziados do "amor de crente" que tem esse nome porque só crente dá amor assim, sem medida nem tempo. Amor de crente.

Derrotados surgem aos montes nas portas das igrejas, mas já não vêem em nós aquele amor que arde no olhar do crente; uma geração sem forças pra amar de novo. Mesmo com todo amor que recebi ao chegar à igreja eu fracassei muitas vezes, quase desisti de vencer; hoje em dia eu não duraria um mês. Era ódio demais e dor e tristeza; todo aquele amor foi antídoto, me curou.

Literalmente eu me envergonhava de ser tão amado, era muito pra minha cabeça quente e meu coração frio; indigno de receber amor daquele jeito, mas Deus sabia o quanto eu precisava ser amado "sem medida"! Deus me amou sendo eu ainda pecador, isso era mais que a minha consciência podia apreender, mas foi o amor dos crentes que o Pai usou como referência.

Será que a igreja não consegue mais produzir crentes apaixonados? Apaixonados por gente que aos olhos humanos não valem uma pipoca, mas que pra Deus, o nosso Deus, vale muito, valeu a cruz.

Saia do seu lugar e passeie pelos corredores, entre os bancos e responda uma coisa: há quanto tempo você não depara com um rosto novo de olhar brilhante e sorriso fácil na sua igreja? Crente novo ri à-toa.

Amor de Deus tem de sobra, está faltando é amor de crente nesse mundão de meu Deus!


 

(ex-interno do Centro de Recuperação de Mendigos – missão Vida)


 

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terça-feira, 22 de setembro de 2009

Não sei lidar com Deus. Parte final.

Não sei lidar com Deus. Parte final.

Magno Aquino


 


 

Agora é voltar, pra onde, e como voltar pastor? Insisto que ser crente deveria ser fácil, já que é fácil pra quem nasce crente; penso nisso o tempo todo; nascendo crente poderia estar em qualquer lugar que quisesse e seria um homem feliz, não aqui à cata duma fé construída a ferro e fogo. Não herdei a minha fé. E comunhão é coisa que deve existir só na minha cabeça; queria falar muita coisa pra Deus, se falasse eu melhoraria muito.

Não entendo de comunhão, leio a Bíblia e concluo, objetivamente concluo; permanecer longe das armas, e das drogas, e do roubo e da violência e do passado, essa, pastor é a religião que aprendi na Bíblia; tem mais coisas, eu sei, mas quando lembro o que Deus já fez de bom, contento-me com o que tenho e me calo, pedir mais alguma coisa pode piorar a situação.

Olho aquele dia pastor Edson, quando levantei a mão e me lembro das seis paradas por overdose de "artani" moído e PCP (pó de anjo) e penso que só fui lá à frente por puro desespero, só por não ter mais a quem recorrer, só por entender que eu "já era", por estar cansado demais daquela vida toda, cansado pra continuar fugindo e me jogando por aí, na esperança de que uma hora qualquer alguma coisa acontecesse, nem precisava ser boa de verdade, não tão ruim como de costume já seria lucro.

Não havia um sentimento bom ou nobre em minha decisão de ser crente, igual às pessoas que decidem nobremente seguir o Evangelho; só desespero, só cansaço pra apresentar lá na frente, nada que prestasse ou chamasse a atenção de Deus; mãos sujas e um coração pesado, oferta de Caim. Quem quer isso? Deus não há de querer.

Tem um versículo que diz: "Quero trazer à memória aquilo que me pode dar esperança." A dimensão desse desejo é enorme, amplia-me, sinto certa alegria pensando. Esperança é uma palavra que tento evitar, há um peso, uma ilusão nessa palavra, mas termino por "tropeçar" nela todo o tempo: versículo, música, artigos, textos devocionais, até na pregação o pr. Arnaldo destaca a esperança, além da sua carta pastor; "receitando" o salmo 40.

Ainda agorinha eu parei de escrever esta carta, hora do culto e adivinha o texto do sermão? Salmo 40... Irritou-me a princípio, mas depois me concentrei e sem motivo aparente me alegrei ouvindo sobre confiança; não foi assim me alegrar sobremaneira, me senti bem. Leio o salmo repetidamente, mudo de versão e sempre a mesma coisa, parece ter vida própria (é só um jeito de falar), pois cada parte me toca, é esse o termo, me toca, incomoda, perturba; é desconfortável e conforta (viiiich!).

Penso, quando leio, que uma hora será minha hora de ser o protagonista do salmo 40 (to pirando né?), Ele vai se inclinar pra mim e finalmente vai me ouvir o clamor, e olha que eu tenho clamado pra dedéu; ouvir é sinônimo de atender. A outra parte já foi, a que fala do poço de lama e perdição, Ele já me tirou desse poço maldito, então, Ele é fiel pra terminar o que começou, não é assim? Ou eu me agarro a isso ou morro.

Aí fica a parte de firmar o meu pé sobre a Rocha, firmar os passos, pra depois chegar à parte visceral: "Me pôs nos lábios uma nova canção!", nessa parte sem Ele não vai dar; cântico novo vem do coração, mas vem antes do coração d'Ele. Canção do céu. "Aloprei de vez". Mas é assim que as coisas estão nesse momento na minha cabeça, é um processo, pois a boca fala do que o coração está cheio; nova canção só pode sair de coração novo, mas não posso me reconverter. Mas posso pedir arrego, posso dizer que se pra Ele tiver tudo bem que eu quero tentar de novo. Do jeito d'Ele.

Ta entendendo pastor? A resposta pode vir pela palavra, novo coração; a partir daí as coisas podem se encaixar; Deus entra com a boa vontade de resolver as coisas, Ele tem boa vontade, Ele não vai me deixar assim cheio de esperança e me largar na mão, vai?

Fica faltando resolver o problema da fé, mas não é falta total de fé não, é só fé pequena, fé sem prática, mas deve servir pra começar, precisa servir. Meio que do nada eu me vejo animado, esperançoso até, como se uma coisa boa estivesse a ponto de acontecer pastor. Eu não vou me animar demais pra não parecer falta de reverência, mas Ele olhou na minha direção, tenho certeza que olhou...
Depois eu escrevo falando sobre o negócio da obedìência que o Paulão insiste tanto.
Saude e bem!