quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A espiritualidade do descanso /

A ESPIRITUALIDADE DO DESCANSO
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Caio Fábio
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Durante muitos anos eu julguei que esse mandamento de Jesus era para os outros, não para mim. Então pus-me a trabalhar na intenção de “remir o tempo, pois os dias são maus”.

O que somente a experiência revela é o seguinte:

1. Jesus viveu apenas 3 anos de intenso ministério e ainda assim julgou que era preciso parar e se separar do bulício da vida e das necessidades humanas a fim de repousar, de comer em paz e de renovar as forças do ser.

2. Sendo Ele quem era, ainda assim, não brincou com a encarnação. Trata-se de Deus respeitando os limites da condição humana.

3. Desse modo fica-se sabendo que nem Deus em Cristo prescindiu da necessidade do repouso. E as implicações disso são óbvias e simples: mesmo a mais genuína e legitima espiritualidade não pode prescindir dos limites do corpo e da alma. Portanto, qualquer projeto de espiritualidade que pretenda existir acima da condição humana está fadado ao fracasso e à doença!



No arroubo da juventude, estimulado pela energia missionária de potro, corri como quem tinha que salvar o mundo inteiro, e cansei...


As conseqüências são inevitáveis:

1. O coração perde o ardor não por falta de amor, mas por absoluta necessidade de energia.

2. Vivendo extenuado, tudo se torna pesado. E nada é mais stressante que o ministério, se vivido com paixão, calor e intensidade.

3. A alma cansada pede férias. E, muitas vezes, pede férias até mesmo do ministério. O que vem na seqüência é que já não se sabe mais se se está cansado pelo cansaço ou se se está cansado do ministério.

4. O próximo passo é que toda a pilantragem que nos circunda vai fazendo o coração cansado achar que está perdendo tempo, malhando em ferro frio, e, então, surge o marasmo, a descrença e a tristeza.

5. Cansaço deprime, esgota e des-romancia a alma. Então, vem a falência dos ideais e inicia-se o processo de trabalhar mecanicamente.

6. O fim disso é imprevisível. Uns adoecem psicologicamente. Outros anestesiam-se a fim de continuar “empurrando com a barriga”. E outros ainda, caem no caminho da auto-indulgencia, pois, se tudo é tão ruim, por quê não dá a si mesmo um pouco de auto-compensação?


Escrevi isto quando estava voltando da floresta no início deste ano de 2003!

Meu pai tem casa por lá. As cutias comem no fundo do quintal, os rastros dos gatos maracajás aparecem na areia branca e fina, os pássaros gorjeiam aos milhares e os sapos são tenores, barítonos, baixos e sopranos!

E as guaribas?—uma espécie de macaco vermelho—cantam em grupos de 300 ou 400 todas as madrugadas de lua cheia, num coral de vozes guturais e barítonas, regidas pelo macaco chefe, o capelão!

E os igarapés? e as cachoeiras? e os peixes do paraíso, após cada provada não dá mais para comer peixe de mar, carregado de maresia?

E meus amigos caboclos? e suas histórias tão puras? e suas dores tão simples e não neuróticas? e suas alegrias tão singelas? e sua fidelidade tão florestalmente macha e digna?

Ah! hoje, mais do que nunca, entendo porque meu pai nunca quis vir para estas plagas—quase pragas—locais e urbanas, onde tudo e todos ofegam até enquanto dizem descansar!

E é essa vida no descanso da Graça que quero viver. E é nessa paz de poder ser de Deus e servi-Lo sem messianismo de nenhuma natureza que estou gostando muito de viver!



Que Deus abençoe você!

Nele,

Caio

sábado, 12 de dezembro de 2009

Vida integral


 

_____________ Vida integral_____________________

"Ora, assim como o corpo é uma unidade, embora tenha muitos membros, e todos os membros, mesmo sendo muitos, formam um só corpo..." l co 12:12

Somos um mar de gente!

Quer confirmar esta afirmativa? Apareça numa das unidades da Missão Vida; diferenças raciais, sociais, religiosas, futebolísticas e peculiaridades mil. Somos um mar étnico e um caldeirão de rostos.

Mas cada interno tem a sua própria história e na história de cada um residem "os sonhos que se perderam..." a esperança que virou poeira, medos e frustrações; nós, obreiros e internos completamo-nos como corpo, homens sofridos sem hipócritas lamentações; pessoas que antes não eram povo, mas que agora se aproximam e caminham rumo a uma identidade nova, uma vida nova, uma esperança nova e única, numa mutualidade em Cristo.

Mais importante do que nos preocuparmos com as coisas que fazemos "pra" Deus, é contabilizarmos o que temos feito em parceria com Deus em favor do irmão; o naipe da nossa vida é aquilatado tendo por referência o serviço. Somos servos aqui, para isso fomos treinados, nossa função é o serviço; a este cotidiano chamamos de "a nossa nova vida!"

Pessoalmente descubro a cada dia que a obra de Deus pode sobreviver e sobrevive sem os meus humildes serviços e sem os meus substituíveis talentos, mas agrada o coração do Pai ter-me por amigo e servo.

Enquanto vivo uma rotina piedosa pra Deus, engano-me; meus pios atos não movem o coração de Deus. Da minha ação em direção ao próximo, da minha disposição em promover cada interno em múltiplos sentidos é que Deus alcança o seu objetivo; é nessa hora, quando amparo o necessitado, é que Deus se cumpre em mim, pleno. Deus não tem ouras mãos que não sejam as minhas e as suas pra fazer serviço social. Nem outra boca pra falar de amor.

Posso preparar e pregar belos e empolgantes sermões que animem a caminhada do recuperando, e pela graça divina tenho feito isso, e posso presenciar vidas sendo transformadas pelo poder da Palavra; mas é quando cuido da alimentação, das roupas, faço curativos, distribuo calçados e acompanho ao serviço médico, é que eles começam a compreender que tudo no altar faz sentido.

Não é uma apologia às obras como meio de salvação, não, é o meu próprio testemunho: As pessoas se moveram em minha direção quando o mais prudente seria afastarem-se, então compreendi a amplitude da misericórdia do céu; a mão da Igreja é que me ensina que será sempre através dos crentes que gente como eu receberá o amor de Jesus.

Intrincados raciocínios teológicos são bons e válidos pra crentes maduros, isso é fato, necessitamos disso; pregações que nos animem nos desafiem e nos confirmem como homens e mulheres de Deus, marcados pela cruz, amoldados ao caráter do Redentor; homens e mulheres de rua, carentes de tudo, no entanto, esperam primeiro que os tiremos da situação de miseráveis, nus, famintos, enfermos, iletrados, esquecidos; é bíblico, totalmente bíblico.

Para quem nunca padeceu necessidade alguma este é mais um discurso sobre gente pobre, a quem o Evangelho integral não alcançou, as minhas palavras soam como coisa nenhuma; mas a cada um de nós, personagens da ciranda: "Faminto, nu, sedento, enfermo, aflito" e a todos cujos corações foram acariciados pela mensagem do Evangelho inteiro, esta é uma séria conversa sobre amar os outros com graça e qualidade.

O que pode parecer uma brusca mudança de assunto é, na verdade uma afirmação: não importa a sua corrente denominacional, ou qual parte do corpo você se julga ser e é, importa a urgência em satisfazermos a vontade do Salvador, sermos um; o corpo é que cura o corpo, e dele cuida.

_____________________ Magno Aquino Miramontes ___________


 


 


 


 


 

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Só Jesus é suficiente?


 

Uma missionária, seu marido, a impossibilidade de gerar filhos, um campo hostil ao Evangelho; a barreira cultural, comum nestes casos: idioma, crenças conflitantes, costumes estranhos, e até a estratificação social; em meio a isso tudo o labor para manter acesa a alegria missionária, que teima extinguir-se. Ela se pergunta:

Só Jesus é suficiente? O que vemos é tão distante daquilo que sonhamos! (sonhos missionários sempre são grandiosos, o mundo inteiro pra Jesus, com Jesus!) a começar pelo meu campo, a meta sempre é o mundo! Mas não chegamos nem perto desse sonho; dias há nos quais sequer sonhamos ou oramos pelo sonho, a enormidade da seara, a lida constante; dias há nos quais descobrimos que fazemos tudo na "obra" de Deus, exceto a Obra de Deus: pregar as boas notícias da cruz; tarefas cotidianas se amontoam..

O vigor físico extingue-se diante das adversidades, aqui na Missão Vida cuidamos de homens sem esperança alguma, já sem vida própria, roubada pelo vício da mendicância, homens sem expectativa; pessoas que já não creem nem confiam em coisa alguma, embrutecidas, sem amor; gente sem nada e que os outros, muitos outros tratam como gente de nada.

Então pode parecer que após lavá-los, vesti-los, alimentá-los, cuidar-lhes as feridas frequentes, quase sempre purulentas... Basta apresentar-lhes o amor do Senhor Jesus e teremos crentes novos instantâneos! Não, isso não é real, posso até encontrar algum grato, e será raro encontrar um, mas a gratidão não produz crentes, nem roupa e comida e banho traduz-se por vida nova.

Embora seja esta a minha esperança e motivação, que ao pregar o Evangelho e fazer o apelo, eles, os internos se apresentem no altar, deixando as coisas que para trás ficam (amo essa expressão!)

Significativas e visíveis mudanças ocorrem após um interno levantar a mão, mas o penoso trajeto está por vir; agora ele é um crente em Jesus por decisão própria, e um homem de muitos e péssimos hábitos por tabela.

Só estamos começando! Um caminho sujeito à desesperança, crises, legítimas crises existenciais e uma angustiante busca de identidade: "Não sou mais um mendigo, nem ladrão, mentiroso, drogado, alcoólatra, pelo menos em tese não sou mais; só que nem chego perto daquilo que a Bíblia chama de crente." Dias e semanas assim, é de desfalecer!

Nessa balada depressiva é que nos assalta a mesma pergunta que por uns momentos perturbou missionária: "Será que só Jesus é suficiente?" E não adianta as respostas de plantão: "E a fé como é que fica?" Ouvir isso é de cortar os pulsos! Lidamos com "homens que não creem nem confiam em coisa alguma" Levantar a mão e ir à frente significa na esmagadora maioria das vezes que aquele homem que não crê nem confia em coisa alguma, vai tentar novamente crer e confiar em alguma coisa, sem acreditar muito.

Há problemas que de tão grandes afetam-me, sucumbo por osmose (!). Necessitar de ajuda extraordinária não é ausência de fé; nosso método diário aqui na Missão Vida é oração e trabalho. A Bíblia, o regulamento, muitos anos fazendo a mesma coisa, adicione aí algum conhecimento teológico e, é isso que fazemos, pastoreamos vidas; somos uma instituição filantrópica e evangélica, dependemos do Espírito até para o trivial; por ajuda extraordinária entenda-se o apoio de voluntários, pastores, psicólogos, psiquiatras que esporadicamente prestam valorosos serviços em favor desses homens.

O que me prostra é a minha própria fé combalida, fé exausta, fé sem gás, sem forças nem pra mim.

Beiro o risco de cair na tentação neopentecostal de querer acrescentar "algo novo" (tipo a psicologia barata vendida na TV) a fim de turbinar a mensagem, tornar o Evangelho atrativo:

Quase omito: "no mundo tereis aflições." Quase omito as agruras do caminho estreito, quase omito o peso esmagador da cruz diária, quase omito a falta que o prazer faz, e até quase omito Hebreus 12: 4 – 13; vich! Quase conto outra história, só pra ver se a luz do alto entra, mesmo que por outro caminho na mente desses homens que não creem nem confiam em coisa alguma e desça aos seus corações

Mas, o Senhor, logo ao lado, intimamente me faz lembrar que não é assim que as coisas funcionam, não. Semear é assunto meu, fazer crescer e florescer e frutificar e fornecer sombra é assunto d'Ele; difícil é aquietar-me, descansar olhando pra eles como quem admira um canteiro cheio de promessas, belas e fascinantes promessas de vidas novas, homens novos, humanos um pouco mais semelhantes ao Senhor que andou pelas poeirentas estradas palestinas encontrando vidas, restaurando vidas as mais variadas, com os mais variados problemas, e continua a fazer a mesma coisa nos nossos dias, ao nosso lado e com a mesma competência de antes.

A graça do Senhor nos basta!

Suficiente graça!

Suficiente Salvador!

Jesus suficiente!


 

(Ex-interno do centro de recuperação de mendigos – Missão Vida)


 

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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Os especialistas


 


 

OS ESPECIALISTAS

Magno Aquino.


 

"Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações. Todos estavam cheios de temor e maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. Os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens distribuíam a cada um conforme a sua necessidade. Todos os dias continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos." Atos 02: 42-47 (NVI)

O crescimento da Igreja dos crentes é um relato empolgante: temor, amor e calor misturados à oração, perseverança e comunhão. Há neste registro tudo o que sonhamos e precisamos para crescer, um crescer saudável e duradouro; não esse processo no qual a Igreja incha por uns tempos e depois volta ao que era, ou regride. Na labuta pelo aumento do rol lançamos mão de todos os meios lícitos, válidos, cristãos e nem tanto.

Diferentes em tudo da Igreja primitiva buscamos na empresa secular os modelos alternativos de crescimento; ainda que o Evangelho que salva e transforma e o Espírito Santo que dá o crescimento sejam os mesmos, imutáveis desde a eternidade, nós insistimos em novas "técnicas" de expansão do Reino.

Tornou-se comum em nossos dias o surgimento de denominações "especializadas" em seguimentos do Evangelho, e fazendo-se "especializadas" fazem-se também arrogantes e relapsas; prega-se um evangelho adaptável, que se adéqua às necessidades do cliente, digo, do crente. Avulta-se o relativo em detrimento do absoluto.

Então temos: quebra de maldição hereditária, e só; confissão positiva, e só; teologia do riso, e só; descapetização, e só; batalha espiritual (seja lá o que queiram dizer com isso), e só; curas e milagres, e só. Cadê o Evangelho integral, bíblico e gratuito? Na minha igreja nós sentimos um imenso e santo orgulho quando dizem que ninguém estuda a Bíblia com maior zelo do que nós; mas, que as mesmas pessoas não apareçam nas reuniões do ministério de oração; um vazio de dar dó. Yes! Nós temos um ministério de oração, Uau!


 

E quase em frente (à minha igreja) abriram uma "igreja de campanha" e do amanhecer ao anoitecer eles oram e contribuem e empilham envelopes de pedidos e ofertas; (de onde vem tanto envelope?), mas nunca os vi calmamente assentados obedecendo à ordem: "Examinai as Escrituras!" Precisamos de uma e de outra coisa, precisamos atentar para o que diz Pedro: "Crescei na "graça" e no "conhecimento" de Jesus Cristo." II Pe 3: 18. Eu sei, estiquei o versículo!

Carregando o slogan do evangelho social nos tornamos assistencialistas, distribuidores de cestas básicas, e só; sequer oramos por aqueles carentes de tudo, e Mateus 4: 4, como é que fica? Pregamos o Evangelho, a Jerusalém celestial, mas agimos como se aqui e hoje não fossem importantes, mandamos todos para o porvir, sem escalas.

Intercessores, e só; ao passarmos por um "nu faminto sedento enfermo", ao largo passamos. Mt 25: 35. "Ama o teu próximo" vem no vácuo de "Ama o teu Deus"; amo Deus e deixo meu irmão na pior? A igreja da benção "A" despreza a igreja da benção "B" e juntas desprezam a cruz.

O nosso egoísmo produz igrejas egoístas; ouvi um pastor "social" dizer que a igreja crescerá "pra dentro", adeus missionário.

A Igreja precisa apresentar os cuidados com o crescimento social e espiritual aliados à experiência de transformação, da presença soberana do Espírito Santo; estudo bíblico e oração; sopão e louvor e cura cabem no mesmo templo. Adicione conversões aí.

Não precisamos de um evangelho da cura, outro da libertação, da prosperidade, um evangelho da quebra de maldição; mas precisamos da cura, da libertação, da prosperidade, da transformação e da salvação que em nós opera o Evangelho de Jesus, o Cristo.

A santidade em nós é que expressa o poder do Evangelho; os bens aparentes não oferecem uma visão clara da presença graciosa de Deus em nós; os ímpios são escandalosamente "especialistas" em ostentar esses bens aparentes, esmagam melhor do que nós.

O bom perfume de Cristo, a boa sensação causada pela tradução da cruz em nós e que nos diferencia, é que revela que somos humanos de volta à imagem e semelhança do Criador. Igreja que fala de um novo Céu, mas que vive uma nova vida aqui, e divide-a promovendo um todo.

Especialistas sim, especialistas em Deus, e só.


 

(ex-interno do Centro de Recuperação de Mendigos – Missão Vida)

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