quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Até Deus já gostou de mim!


 

Magno Aquino Miramontes

"No amor não existe receio; antes, o verdadeiro amor lança fora todo o medo." 1 João 4: 18a KJA

"eu não fui assim a vida inteira..." Foi esta a frase que ouvi ao parar pra dar atenção a um mendigo, próximo à igreja.

Por todo o dia fiquei pensando nas palavras daquele homem; atingiram-me. Ele continuou o seu desabafo e o curioso era o fato de se dirigir a mim que passei um longo período afirmando a mesma coisa ("eu não fui assim a vida inteira, eu já prestei!"), desesperado tentando provar a mim mesmo que em outro tempo as coisas foram diferentes.

"Cê pode até duvidar, mas já teve gente que gostava de mim!" Gritava ele a um metro e meio de distância, "Se bobear, "irmão", até Deus já gostou de mim, eu já prestei, eu já tive casa e tudo, emprego bom tive uns cinco e amigo era pra todo lado, cê tem que ver a lindeza da princesa que deixei em casa!". Uma foto amarrotada surge nas mãos encardidas, um bebê.

Fiquei calado esperando o fim do dolorido discurso. Transtornado pelo álcool e por drogas as chances de uma conversa decente eram nulas; entreguei-lhe uma cédula de dois reais sem ao menos tecer as recomendações que nós os crentes temos o péssimo hábito de fazer; não obstante, meu pensamento saiu dali encharcado com as imagens que as palavras daquele mendigo fizeram brotar.

"Eu não fui assim a vida inteira..." Eu também não... Andei desconfortável por vários quarteirões; pregaria em instantes e todo o meu entusiasmo se desvanecera; deprimi. Sem vontade nada além de vontade de chorar.

Gente assim! Gente que de uma hora pra outra abre os olhos e descobre que o seu passado virou fumaça e o seu presente é o resumo do caos; lixo e roupas sujas e comida velha e moedas de pequeno valor e pontas de cigarro e cachaça ruim e cheiro de urina e gente limpa que se desvia e gente limpa que lança moedas de pequeno valor. Nenhum valor.

Esqueci-me do sermão e do compromisso na "igreja grande" e percebi o universo rasteiro que me rodeia e que muitas vezes nem noto; mendigos pra todo lado. Aspirei e senti o cheiro característico e até pouco tempo comum, cheiro de gente de rua. Gente assim.

Imagens de um passado não muito distante, cenas de dias vazios, ruins de lembrar; difíceis de acreditar e difíceis de esquecer.

Naquela conversa o homem por detrás daquela derrota recordava as vezes que tentou e até conseguiu ficar limpo por um tempo, mas contava também todas as vezes que de uma hora pra outra se descobria ali, no lixo, rodeado de dias ruins de viver ruins de suportar.

Tenho a sensação desagradável de estar fazendo as coisas pela metade, fazendo de um jeito que não acaba bem; as pessoas saem dos centros de recuperação e nem mesmo estréiam seus documentos novos e suas vidas novas e já estão de volta; um olhar inexpressivo e uma história repetida; sobrou isso.

Identifico isso tudo nas conversas do reincidente, ele saiu do centro de recuperação onde ficou meses e meses sem drogas, sem álcool, sem roubar, e com sorte ouviu sobre o amor de Deus, até mesmo, com muita sorte experimentou esse amor; agora é ele e a rua e o placar já começa contrário. Ser ex é sempre um drama.

Quando não encontra acolhida em casa, nem na igreja, sequer trabalho arruma, vai rondar e rodear velhos companheiros, velhos lugares e sente-se confortável, aceito e seguro; por um tempo é assim.

Quando a sensação de conforto se torna inquietação, a aceitação vira cobrança e a segurança não é mais tão segura assim, volta pro centro de recuperação, único lugar seguro e familiar e onde ele sabe que mesmo que por um pouco de tempo será cuidado e amado, mais um pouco. Amado.

A conversa daquele moço me trouxe essa questão e agora só penso nisso: "O que a Igreja tem feito a respeito de gente assim?" 1 João 4: 18


 


 


 


 


 


 

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Deus! Muda o meu coração!


 

Magno Aquino Miramontes


 

Tenho repetido esta oração desde os tempos nos quais sequer compreendia as razões do arbítrio e o fato bíblico de Deus permitir-nos escolher o próprio caminho, e suas implicações.

Suplicava sofridamente que as minhas atitudes, ou melhor, as minhas reações frente às injustiças, às afrontas e ao desprezo fossem maduras, equilibradas; mas qual nada!

Diante da primeira dificuldade relacional eu explodia, descobria que Deus não fizera a parte d'Ele; não mudara o meu coração.

Eu orara e isso era fato. Então qual o motivo da minha intempestiva conduta? Minha desmedida ira? Cadê o sobrenatural em mim? O operar inexplicável no meu duro coração que diligentemente suplicara por uma intervenção divina, uma ampla transformação no meu relacionar?

Eu precisava urgentemente que Jeová interferisse em mim, (tipo quando fez aquelas coisas com o Faraó nos dias que antecederam o Êxodo).

Na primeira epístola de São Pedro há uma expressão abrangente, nos primeiros versos Deus traz através do apóstolo uma série de afirmativas concernentes a quem somos nós, quem Ele é, o que fazemos aqui e, o motivo da inexplicável exultação da nossa alma, a saber, Jesus, crucificado, ressurreto, ascendido, glorificado.

Então vem a tal expressão abrangente: "Porquanto, estais realizando o alvo da vossa fé: a salvação de todo o vosso ser." l Pe 1: 9 KJA

O Espírito Santo não disseca nem subtrai o humano, antes, associa-o a si mesmo, integral; a maioria das versões limita a salvação da "alma", parte do ser; aqui se amplia o sentido: "... todo o vosso ser."

Deus na Bíblia muitas vezes operou de forma unilateral, mas Deus na Bíblia jamais mentiu acerca de Si mesmo e não me lembro de ler nalguma sobre Ele violar um humano; o Pai, amoroso como Ele só, não se constrange com a nossa demora em compreender a Sua vontade, sendo o Eterno, "tem todo o tempo do mundo!".

A conversa aqui é sobre o que Deus não fará por mim e por meus particulares desacertos.

Hoje pela manhã as minhas orações duraram pouquíssimo tempo (minhas orações são sempre rápidas, atropeladas; hoje foram muito rápidas e muito atropeladas), pois ao pedir a intervenção divina numa área de controle humano, violei o princípio do arbítrio. Entendi isso me lembrando exatamente do Faraó.

Jeová afirmou coisas a respeito daquele moço, utilizou-se dos elementos, das pessoas e das circunstâncias e crendices pra chegar ao coração dele e através dele triunfar sobre o mal institucionalizado ali no Egito; mas não violou o coração daquele moço.

Quando eu oro: "Deus! Muda o meu coração!" Necessito entender: fatores externos serão acionados e o Pai, mesmo sendo amoroso como Ele só, vai esperar a minha reação, e "torcer" para que os tais fatores externos ao me atingirem e alterarem o meu mundinho, também me ensinem, e o meu coração mude o seu curso, ou a sua prece.

Não há lugar em nosso relacionamento com o Senhor pra intervenções grosseiras; Deus permite-me perceber ao meu redor a sua ação. Da minha sensibilidade depende a minha compreensão.

Elias descobriu que Ele não estava nem no vento, terremoto ou fogo, o texto do livro dos reis 19: 12b, diz: "um cicio tranquilo e suave."

O Senhor "espera" que nos aquietemos e compreendamos a Sua ação em favor de nós, Ele sempre faz isso mesmo quando não merecemos; e nunca merecemos.

Um coração humano age como tal, até ser redimido e santificado segundo os padrões do Padrão, que é Jesus; sem isso, nada feito.

Deus não vai mudar o meu coração; ainda que desde criança, antes de conhecer e submeter-me a Jesus, eu conheça o texto de Ezequiel sobre o coração de pedra e o coração de carne, é tão somente retórico! Deus não vai proceder a uma cirurgia em mim, até pode, mas não vai, não age assim por definição.

"Deus! Muda o meu coração!" Essa minha oração repica na minha cabeça o tempo todo, espero e não consigo ver mudanças, ah, Deus!

Até quando começo a me perguntar o que de fato Deus fez a respeito de tudo isso, pra aí me calar; contemplo o caminho percorrido e não sem esforço identifico a constante ação de Deus durante o dia difícil, através do sermão cansativo e ruim de pregar e, por conseguinte, de ouvir; pela oração demorada demais ou curta demais ou descomprometida demais.

Percebo o cuidado com o meu coração até no hino fora dos trilhos e nos avisos e nas conversas enfadonhas e reuniões intermináveis de trabalho, e até no trabalho repetitivo de fazer a mesma coisa todos os dias do arrebol ao ocaso.

Deus, lindamente espera que me acalme e me desocupe; desafogue-me, me desenlace e me desobrigue pra então falar, sem o alvoroço do vento, do terremoto ou do fogo.

Tranquilo e amoroso Ele aguarda a minha atenção, espera até que eu desvie o meu olhar das coisas e das pessoas; não vai fazer alarde, vai falar mansa, doce e suavemente e a Sua Palavra será de fácil entendimento e o meu coração, quieto, atento e ouvinte, mudará. Certamente.


 

(Ex-interno do Centro de Recuperação de Mendigos – Missão Vida)


 

Missão vida. Ajudar faz bem!


 

sola Scriptura! 02 anos de leitura bíblica.


 


 


 

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O mal que habita em nós

Somos belicosos. Humanos sempre dispostos ao enfrentamento; sabemos responder "a altura" ao sermos ameaçados e/ou afrontados. Êita sangue crente!

Mesmo quando afirmamos o controle divino sobre o nosso comportamento, ainda assim nos indispomos fácil, fácil; uma reserva infame de nós mesmos que usamos sempre que se apresenta uma ocasião. Somos belicosos.

Ao nos aplicarmos à leitura e, por conseguinte ao conhecimento da Palavra de Deus, percebemos o Senhor ensinando-nos, capacitando-nos para as situações adversas; 1 Pe 3: 17 afirma: "Porque é melhor sofrer por praticar o bem, se for da vontade de Deus, do que por fazer o mal.". O Espírito utiliza-se de Pedro e convoca-nos para um exercício puxado, administrar a situação tensa, administrar a resposta rude, a observação jocosa, ofensiva; aqui na Missão Vida nos tornamos administradores hábeis, coisas do ofício.

Administrar conflitos é uma arte.

Crentes administram conflitos.

Ser crente é uma arte.

Um arremedo de silogismo pra fraturar a monotonia do assunto.

No Evangelho escrito por São João 15: 19, Jesus previne-nos quanto às agruras que aguardam os crentes; as aflições se apresentam logo após a conversão, penso que ainda durante a festa dos anjos, (hoje mesmo tem festa lá no Céu, mais um mendigo virou crente) o inferno já trabalha objetivando o fracasso do novo crente.

Posso falar sobre isso horas a fio, (ao deixar as armas e o roubo e as drogas pela Bíblia, não me deixaram mais em paz, por muito tempo; ser crente é bom demais da conta, se não fosse todo mundo ou quase desistiria na largada, certamente).

Que atitude neste ou no mundo espiritual pode ser mais criminosa que a injúria? O descaso? A Igreja vem se esmerando na infame arte de injuriar e tratar de qualquer jeito.

E o fogo cerrado não ocorre nas ruas, somente; entre nós campeia o mal, que só encontra guarida por encontrar uma porta.

Uma expressão pode ampliar nossa compreensão do quanto facilitamos a progressão maligna em nós e através; Jesus, o Senhor, ao ensinar-nos a orar inclui "Livra-nos do mal" Mt 6: 13a NVI; compreendemos aqui a forma de sermos livres do mal, deixando que o Espírito conduza-nos a lugares seguros, por caminhos seguros.

Não enfrentamos as ciladas do diabo, nos desviamos delas; desviar do mal é assunto do salmo 1:1, e Jó é exemplo desse desviar: "Homem que teme a Deus e, evita o mal." Jó 1: 8b, não obstante, nós recebemos quando não somos nós quem convidamos o mal e os seus agentes espirituais e/ou humanos pra estar conosco.

"Se o teu pé te faz pecar, se a tua mão te faz pecar, se o teu olho te faz pecar, pare de se orientar pelos "teus membros".

"Livra-nos do mal" é parente próximo de "Resisti ao diabo," E o resultado é um só: "e ele fugirá de vós!"

O Senhor ensina-nos a orar e a depender; são atitudes que exigem constância, evitar o mal é ato de resistência.

Não há concessões na Bíblia, nem meio-termo há; o mal na Bíblia é identificado e tratado como o mal, e cada vez que cedemos no falar, pensar e fazer, ao mal cedemos. Mal que se instala, aloja-se.

E Pedro discorre didaticamente sobre o triunfar sobre o mal: "Demonstrai compaixão e amor fraternal, sede misericordiosos e humildes." Isso é guerra contra o maligno proceder! Minamos o inimigo recusando-nos a usar as mesmas armas; a nossa luta não é contra humanos (por mais detestáveis que alguns se apresentem de quando em vez).

A nossa luta é contra o mal por dentro e por detrás de gente que gasta energia e tempo na tarefa ingrata de parecerem bons, mas não se movem em direção à fonte de todo o bem, o Senhor.

Traduzir Jesus é simples: compaixão.

Sentimento algum assemelha-nos ao Senhor como o faz quando nos compadecemos, padecemos com, temos o mesmo sentimento, e pensamento.

"Não retribuindo mal com mal, tampouco ofensa com ofensa; ao contrário, abençoai; porquanto, foi justamente para este propósito que fostes convocados, a fim de também receberem benção por herança." 1 Pe 3:9 KJA

Stott oferece-nos precioso comentário: "Pagar o bem com o mal é demoníaco; pagar o bem com o bem é humano; pagar o mal com o bem é divino."

Dava pra encerrar aqui, mas preciso destacar um termo da epístola de São Pedro: Abençoai; a despeito da infâmia e das ofensas que sofrer, eu abençoarei.

Se fosse fácil todo mundo seria crente. Justamente aqui vemos solapar a fé; abençoar a quem me amaldiçoa, tratar com amor a quem me ofende, desejar e contribuir para o bom sucesso de quem maquina o mal contra mim.

Pagar o mal com o bem e ser de ponta a ponta parecido com Jesus.

(ex-interno do Centro de recuperação de Mendigos – Missão Vida)


 

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Letra Santa - Comunidade de leitura

domingo, 20 de junho de 2010

, O veremos!

_______ Magno Aquino
Rever o meu pai após tantos anos seria a experiência que me faltava naquele ano; tinha tres anos quando ele e a minha mãe compreenderam que sozinhos andariam melhor, ou simplesmente seriam menos infelizes.
Quatro anos depois descobri os calmantes da minha mãe no criado-mudo e as bebidas no bar da sala; um pirralho de sete anos que se alegrava tomando calmantes e bebendo run, ou o que encontrasse. Década de 70.
Cidade do Salvador – Bahia; íamos de ônibus e isso em parte era favorável, um tempo longo para que no percurso nós, eu e a Marialice, a caçula pudéssemos conceber imagens, diálogos e botar as ideias e os sentimentos em ordem – tinha algumas vagas imagens, nenhuma lembrança do timbre da voz. Os meus sentimentos eram tão ou mais confusos do que os da minha irmã adolescente.
Expectativa: a palavra apropriada
Apreensão: a palavra reinante
Angústia: nosso estado de espírito.
De um momento pra outro fomos tirados da nossa realidade simples com hábitos e problemas comuns pra uma aventura de mil quilômetros ao encontro de um desconhecido por quem não sabíamos o que sentir. Desconforto e chateação, uma viagem ruim, decididamente; só não era de todo insuportável por termos um objetivo: conhecer o nosso pai.
Eu era um sujeito estranho recém saído da dependência das drogas e do tabagismo, com sérios problemas de saude, mas feliz, a despeito do lastimável estado. Falávamos muito sobre como ele seria agora, se chegaríamos e seríamos polidos distantes, ou se correríamos ao seu encontro e o abraçaríamos sem saber o que dizer; nas nossas mentes confusas era só isso e imagens em branco e preto das fotografias do álbum de mamãe.
Hoje sou homem feito e já passei dos quarenta e pretendo, permitindo o Senhor, viver outros quarenta e tantos; tenho outra expectativa (houve um tempo em que a diferença entre o mundo que deixei – drogas, violência, contrastava e contrasta com o mundo para o qual fui transportado – amabilidade, cuidados) e eu pensava que pedir outra coisa além de poder frequentar uma igreja seria abuso.
Hoje quero gastar toda a minha eternidade somente assim, face a face com o meu outro Pai. Se aquela viagem teve um final surpreendente, pense no desenrolar desta.
Quem ainda não tirou um tempo para imaginar como será lá? Lá na glória, pois não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir. A Igreja triunfante, noiva! Razão da nossa caminhada. Nós somos um povo triste muitas vezes; desesperançados outras tantas por perdermos a noção exata de quem somos, do que estamos fazendo aqui, porque e pra onde estamos indo.
Vivemos aqui como se este aqui fosse o nosso destino final, mas não é este o nosso mundo no qual o mal impera e do qual já fomos resgatados. Tal sistema nem de longe se assemelha ao que nos está sendo preparado pelo Senhor. Nem imagens em branco e preto desfocadas temos do Céu.
Não sou um romântico como o Padre Zezinho: “Não sei se eram verdes os seus olhos, se tinha cabelos morenos...” Minha esperança está próxima da letra de uma canção dos unicistas da banda “Voz da verdade” “Ali tudo é vida, ali tudo é paz, morte e choro, nunca mais... Tristeza e dor, nunca mais!” Pelo visto quando cita a Bíblia a voz é verdadeira.
Na sua minguada compreensão e no seu estreito vocabulário o apóstolo São João tentando descrever o indescritível abusa dos comparativos; tente contar quantas vezes ele lança mão da palavrinha “como”: “Olhos “como” bolas de fogo”, e muito mais. E quando fala da Santa cidade ele compara certamente com algum lugar do qual só conhecia antes de ouvir falar: “Muros de jaspe, ruas de ouro...”.
Ah, a Árvore da Vida no centro da Cidade e ali o Cordeiro glorificado; penso que até os “como” de João são medíocres.
O povo de Deus necessita urgentemente sonhar ardentemente com o Céu; isso refletirá na qualidade da vida dos crentes, sonhar com o porvir; o Céu.
O Cordeiro glorificado, e nós com Ele.
Eu e a Marialice desembarcamos em Salvador duas décadas atrás com o coração aos pulos e a garganta doendo de angústia; por pelo menos dez vezes pensamos que homens sisudos e bem vestidos fossem o nosso pai, mas ele surgiu de camisa e bermudas brancas e sandálias de couro; Marialice e ele se abraçaram demoradamente, uma imagem ainda hoje forte na minha memória; e eu, bem, eu estiquei a mão, pedi a benção e olhei pro chão.
Mas lá, livre de todas as convenções auto-impostas pelos muitos anos de escuridão, quem sabe ao vê-Lo eu quebre o protocolo e corra ao Seu encontro e tasque-Lhe um beijo um abraço e, dispare a falar (quando calmo, já falo mais que a nêga do leite, imagine eu e Ele, faca a face).
Mas desta vez não desviarei o olhar, porque olhar pra Jesus, face a face é a razão minha de ter esperança n’Ele, Jesus esperança nossa. Isso me sustenta. ... Assim O veremos.

(ex-interno do Centro de Recuperação de Mendigos – Missão Vida)

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