sexta-feira, 16 de abril de 2010

Origem


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De onde venho

Não se olha no olho

Se gasta mais tempo

No movimentar das mãos,

Na metálica agudez do ângulo

Atravessando o ar

A carne

Encontrando-a,

E fim.

Lá de onde venho

Não se dão bem as mãos

Jamais afagam

Nunca ajudam

Sequer acenam.

Estas, e outras

Fraturaram-se em vão.

De paz não se fala

De onde venho

Menciona-se a dor

Presente, constante

Paz inexiste

Dor silencia

Ser ou não ser

Não importa ser,

Ou não.

Venho de percorrer estranhos caminhos

Balbuciar lamentos secos

Pelo brilho que se desfaz

No prazer do minuto,

Sequer seguinte.

Fumaça do engôdo

Solidão de agulha

Falta de ar

Ausência de gente

Terra sem Deus

Inferno das ruas.

______________ Magno Aquino

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Desobedecer é genético

Desobedecer é genético
________________________ Magno Aquino


Adão deu ouvidos à sua esposa, desobedeceu e este ato de desobediência tem custado nosso sangue, suor e lágrimas, ah! Adão!

Não foi o único, a história traz histórias de homens, e mulheres que preferiram dar ouvidos à própria carne a obedecer à razão que emana do trono de Deus; nada há de mais racional que obedecer ao Senhor. Sei disso, falo com a segurança(?) de quem desobedeceu, burramente.

Saul desobedeceu, custando-lhe muito caro dar atenção aos rogos do povo e da própria cobiça, neste caso é preciso pensar no adágio que afirma que o inferno está apinhado de boas intenções; perdeu a razão, a coroa, a vida e a chance de entrar pra história de Israel de forma decente.

Mas ficar aqui escrevendo sobre os desobedientes é fácil, aliás, falar e filosofar a partir dos outros só traz conforto à minha alma, cheia de cicatrizes e lembranças ruins. Tenho conversado com meus irmãos internos do centro de recuperação de mendigos – Missão Vida – em Sobradinho-DF e como em todas as outras unidades pelas quais já passei e servi, vejo e ouço histórias de desobediência.

Não é possível, aos irmãos e irmãs que não vivem esta nossa realidade de missão urbana que recolhe, acolhe, cuida e evangeliza homens de rua, imaginar a quantidade assustadora de crentes caídos encontrados em situação de miséria extrema.
E como todas as histórias de desastres e desgraças começam? Invariavelmente todas começam quando as mentiras de satanás nos encantam e seduzem embotando o brilho das evidências e promessas

do Senhor Deus; deixamos aquilo que vem sustentando-nos há muito tempo em troca de uma sugestão de outras colheitas, em outras paragens.

Desobedecemos até com certa dose de prazer; a adrenalina do pecado, a indescritível sensação de perigo e desafio que acompanham nossa raça; desobedecer é genético. Minha vontade insana suplantando a racional decisão de servir e obedecer.

Quem nunca passou pela perturbadora situação quando a carne grita e o espírito se contorce como uma cobra na fogueira, e então: DESOBEDECEU? Por muitos anos, depois de Jesus eu furtei coisas sem valor ou serventia alguma, mas que no momento do furto me pareceu o mais precioso e indispensável objeto; quanta dor e vergonha neste assunto, meu Deus! Devo ser maluco pra confessar uma coisa dessas.

Desobediência cauteriza a alma, tolda os pensamentos, entreva o espírito antes rendido à razão bíblica. Mentimos ao telefone e mentimos no altar. Adulteramos na carne e no crer. Descremos, só pra desobedecer sem doer tanto. Relativizamos o pecado e drogamos a consciência com novíssimas interpretações de textos que antes temíamos desobedecer.

Não me considero o maior dos desobedientes, S. Paulo já tomou para si o deplorável lugar mais alto do pódio, mas chego bem colocado.

Pessoas desobedecem até quando pregam a respeito d’Aquele que é a Verdade, prometem uma vida melhor pra todos os arrolados nas suas igrejas. Garantem coisas que não estão na Bíblia, afirmam promessas jamais saídas da boca de Deus.

Falando de nós, mentimos na saudação; quantos "to na benção!" na boca de perdedores! Que são perdedores por não conseguirem mais desobedecer a si mesmos e obedecer a Deus. É! Pra voltar a obedecer a Deus eu preciso me desobedecer, contrariar o vil que se fez normal em mim.

Tentaram deixar um homem de Deus em apuros perguntando-lhe o motivo pelo qual Jesus, sendo Deus, escolhera Iscariotes; o homem de Deus respondeu que não poderia responder tal pergunta, uma vez que se encontrava ocupado demais se perguntando o motivo pelo qual Deus o escolhera. To olhando pra tela e me fazendo a mesmíssima pergunta.

Mas graças a Deus por nosso Senhor Jesus Cristo!

http://letrasanta.ning.com A sua rede de leitura.

sábado, 27 de março de 2010

Acrofobia

Acrofobia
_________ Magno Aquino
Não tenho medo do escuro
Medo
Tenho do alto
No escuro tenho tato
No alto
Só tenho queda

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Pastor Wildo; o concreto o sonho.

Pastor Wildo, concreto e sonho.

---------------------------------------------------------------------- Magno Aquino


 

"O seu coração não está aqui!" ouvi esta afirmativa sob o inclemente sol da Bahia; rodeado por pilhas de tijolos, sacos de cimento, montes de areia fina, média, grossa, saibrosa e ferros e suor, abundante suor e humores ácidos.

Não respondi; não de imediato; ando lendo a Bíblia como deveria lê-la há anos, com atenção, e contrito. É isso, ouvir e silenciar, permitir-me uma lacuna, considerar cada palavra e orar, pra só então responder, mansamente; é um parto! O resultado, porém, é fascinante, funciona, economizei muitos arranca-rabos desde então; mas é um parto! (posso falar sobre partos, sou cinegrafista, já filmei dezenas de partos.)

Ouvir sem responder, mesmo quando a perplexidade da afronta conduz todo o sangue aos olhos; coisa de crente!

O meu coração está em Deus, atento e disposto, Ele sabe disso, as pessoas que generosamente convivem comigo sabem disso (conviver comigo tem sido um ato de generosidade explícita nestes dias!) até quem verbalizou a afirmativa sabe disso.

Entenda uma coisa: sou missionário, dispus-me a não exercer mais nenhuma profissão secular com remuneração e direitos celetistas condizentes com as mesmas em troca do honroso ofício de obreiro da missão Vida; desde então de nada tenho falta, até voltei a estudar e ajudo a minha filha. Deus é Bom! "Amo o que faço, por mais difícil que, às vezes, seja fazê-lo: recuperação de mendigos."

Mas acabo de ser removido de um campo missionário no qual me sentia útil o dia todo, todos os dias. (economize o seu e o meu tempo, não envie e-mail me lembrando que vida de missionário é assim, eu moro no trabalho.) Lá, entre as tarefas cotidianas estava o parar pra emprestar os ouvidos, confortar e animar os irmãos internos, acolher os novos, oriundos de situações desesperadoras e cuidar-lhes as feridas, cuidar da saúde, aparência e do moral. Testemunhar o milagre que em mim se operou, pois cheguei aqui em idêntica ou pior situação que a maioria deles, e alimentar-lhes a esperança graciosamente fornecida pelo Senhor Jesus.

Participar do todo o maravilhoso curso que a vida daqueles homens toma quando se submetem a Deus no programa da Missão Vida.

Nos últimos cinco anos tudo o que eu pensava sabre e crer foi alterado ou substituído, conceitos que não passavam de suposições, obesidade teológica. Um total anonimato quanto a real responsabilidade da Igreja.

A afirmação diz que não amo o que viemos fazer aqui e ela é um equívoco; não amo lugares ou situações, nunca amei. Insisto em permanecer sob a vontade do Pai; sofro menos, aprendo e cresço. Mas confesso o meu desapontamento quando após a devocional ao ar livre (Uau! Nós temos uma árvore enquanto não temos uma capela; já até chamamos a nossa árvore de capela; ou seria, chamamos a nossa capela de árvore?)! Ergo os olhos e lá estão os montes de areia fina, média, grossa, saibrosa e sabe-se lá mais o quê.

Não amo essas coisas. Na fazenda da Missão Vida aprendi amar gente, de todo tipo e lugar, não importando a anterior circunstância; corpos sujos, unhas e cabelos idem, feridas mal-cheirosas e mendigos desbocados não estragam o meu dia, eles são o meu dia, pra isso me treinaram lá. Ainda não consigo amar construções.

Não consigo como o Pr. Zilvan consegue exultar com as novas paredes, nem com as estruturas metálicas imponentes; dias ruins esses meus aqui.

Concreto e calor, pregações rápidas e orações escassas, implicantes; um balbuciar murmurante e incrédulo, uma desesperança de que algo mudasse nesses longos e lentos dias. Mas as coisas sempre mudam, ainda que jamais me habitue às flagrantes intervenções de Deus em nós.

O fundador e presidente da Missão Vida, rev. Wildo apareceu dias atrás, um evento! Numa das visitas ao local onde diariamente construímos a nova unidade, ele, do nada aparente começou a apontar em várias direções e a falar e falar e descrevia com vigor a fileira de árvores rente à cerca, as plantas ornamentais e o grande quiosque no qual as crianças carentes da região serão ensinadas por professoras crentes, duas professoras; até o lanche das três da tarde ele descreveu.

Depois apontou para o terreno, um platô onde tem uns buracos e umas estacas fincadas, e detalhou o novo alojamento, e biblioteca e refeitório, minuciosamente, até a "rua", até as telhas de cerâmica, "muito bonitas por sinal!" Meus olhos perseguiam as direções apontadas e se certificavam que ali, no ardor da tarde, só havia mato, lixo e areia, muito mato, lixo e areia, areia abundante.

Confesso que não senti vontade alguma de dizer qualquer coisa, meu respeito e afeição por ele me calaram, desviei os olhos, desolado e só.

Abrindo o meu e-mail, (já contei que a net aqui é via rádio e cai o tempo todo? Que não existe 3G nem banda larga? Que não tem correios? Comentei que a minha lista de etcéteras das coisas que aqui não tem, fim não tem?) e encontrei o e-mail da Ivy Menon; encafifo com a ironia divina sempre se utilizando de presbiterianos "pra me chamar na regulagem" (embora a graça e o talento abundem nesta cáustica e adorável calvinista) cajado e bálsamo.

Em seguida, numa conversa caseira (metodista) a Lúcia Estela do Paulão me disse coisas que só uma amizade de mais de vinte anos pode produzir, mais cajado, e mais bálsamo; contou-me que foi ao Maranhão entregar a quarta e última filha à Obra do Senhor: Ana Paula, Laura, Cláudia e Adriana; Bangladesh, IM, Moçambique e Maranhão, êita! Agora só falta o Timóteo.

Daí, um moço que nunca me vira antes interrompeu o culto pra me "entregar um recado de Deus!" (quem me conhece sabe que me retiro em tais situações) e sem rodeios falou de assuntos de foro íntimo, uns trem que só conversei com Deus; nada subjetivo, sem gritar, afiado, direto; um refrigério assombrou-me.

Ao sair olhei pra construção, tava escuro, firmei as vistas (mamãe é que fala assim) procurando o quiosque com as crianças e as árvores e as telhas de cerâmica "muito bonitas por sinal!" que só o pr. Wildo consegue ver; os prédios e a capela e a biblioteca que até agora só estão na cabeça do Pr. Zilvan; os laguinhos que só o Douglas enxerga.

Certamente nunca me apaixonarei pela construção de um prédio nem entoarei louvores porque o cimento chegou na hora e a brita veio no número certo.

Já parei de orar "tentando me apaixonar por tijolos!" Preciso ser mais romântico e sonhador e amar os sonhos do Pr. Wildo e do Pr. Zilvan, amá-los, até que os sonhos que hoje são só deles sejam sonhos de Deus em mim.

Já parei de encher a paciência de Deus (ia escrever "encher o saco") mas combato em mim a facilidade impune em proferir palavrões, um hábito velho demais, que agora também é um hábito feio.

"Essa porcaria é um hábito forte pra caramba, mas com dizem aqui, Deus é mais!"

(ex-interno do Centro de Recuperação de Mendigos – Missão Vida)